Entre tragos

maio 19, 2008

O relógio marca 00:30. A penumbra invade as janelas do apartamento. Uma luz fria atravessa as cortinas e toca o rosto do jovem, já adormecido. O vento noturno sopra levemente e circula pelo quarto. Aquele calor infernal do dia finalmente desapareceu e deu lugar ao ar fresco vindo do sul. Coberto apenas por um lençol, o jovem parece sonhar com algo intenso. Move-se a todo o momento pela cama, transpira como se corresse e sussurra coisas incompreensíveis, na língua dos sonhadores.

Em um segundo, o sono se quebra. Ele quase cai para fora da cama ao gritar assustado. Respira fundo algumas vezes e demora um pouco para cair em si. Tudo aquilo, por mais real possível, tinha sido apenas um novo pesadelo. O primeiro depois de algumas semanas de noites tranqüilas.Levanta, ajeita a samba-canção, caminha lentamente em direção a cozinha. A luz amarelada da geladeira ilumina o pequeno apartamento bagunçado. O prazer de beber um copo de água gelada era tudo o que ele queria.

O relógio, pendurado na parede da sala, marca 2:28. Ele zanza, aceso, pelos cantos do apartamento a procura de sono. A insônia havia voltado. Não estava curada, como pensava, e chegou como um sonho ruim. Sem esperanças de uma noite bem dormida, o jeito é tocar baixinho um violão, acender um cigarro “caseiro” e caminhar sem rumo pelas ruas da cidade.

Em meio a fumaça, que sai da boca, ele vê uma cidade sem dono. Ruas vazias, bares e restaurantes fechados. Sons de buzinas e sirenes policiais o acompanham ao longe, compondo a trilha sonora da madrugada. Entre um trago e outro, ele percebe estar no meio de uma praça e senta no banco de cimento para apreciar calmamente seu cigarro.

– Fala parceria! Será que não dava pra tu me arranjar um trago desse cigarrinho aí? – pergunta um homem de barba longa, vestindo trapos e enrolado em uma coberta surrada.

– Bah amigo, o cigarro tá quase no fim. Mas, tudo bem, senta aí!

O homem estranha e, com desconfiança, senta devagar ao lado do jovem rapaz. Em comum, eles trazem o prazer pelos cigarros e a barba há um bom tempo por fazer. Na paisagem da grande cidade, a brasa ilumina, de trago em trago, os rostos mal dormidos, as pupilas dilatadas, os risos tímidos na fumaça.

O cigarro acaba logo. Eles dividem a última ponta. Por alguns segundos, permanecem parados lado a lado, curtindo em silêncio o prazer das longas tragadas.

O jovem cumprimenta o homem, levanta e caminha sem pressa de volta ao apartamento. Enquanto anda, pensa há quanto tempo aquele homem deve estar sem uma boa noite de sono.

O homem permanece ali sentado no cimento, envolto pelo cobertor sujo, aguardando a hora certa para procurar um bom lugar para dormir. – Há quanto tempo esse guri não dorme? – pensa o homem, segundos antes de começar a caminhar em busca de um pouco de sono.

O vento continua a soprar, refrescando a madrugada da grande cidade.

O relógio marca 4:45.

Gustavo Zonta – amante da madrugada e levemente perseguido pela insonia

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2 Respostas to “Entre tragos”

  1. Fernando Says:

    Se eu fosse ele, bebia!

    😀


  2. Guga,

    quem você acha mais bonita (ou bonitinha?):
    Fernanda Takai ou Audrey Tautou?


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